Segunda-Feira, 15 de Outubro de 2018

Victor Barboza

Victor Barboza é fundador da GFC - Gestão Financeira Criativa e atua com Educação Financeira e Gestão Financeira de pequenos negócios

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7 armadilhas desarmadas pela Psicologia Econômica



A Psicologia Econômica nasceu da necessidade de se acrescentar um viés mais abrangente à Economia, que sozinha, não dava conta de explicar suficientemente e apropriadamente os fenômenos econômicos, sempre influenciados pela participação humana. Ao contrário do que os estudos econômicos tradicionais (muito atrelados à racionalidade dos indivíduos) previam, o comportamento econômico de indivíduos e grupos acabava divergindo do esperado.

Essas abordagens econômicas tradicionais formam a teoria da racionalidade, que que defende que as pessoas usam informações disponíveis e relevantes para prever o valor futuro provável de variáveis econômicas, e, que não cometem erros sistemáticos ao fazer essas previsões. Ainda que erros sejam cometidos, será tirada lição destes e os erros previsíveis serão eliminados. De certa forma, nesse caso, tem-se uma visão do homem sempre buscando otimizar seus esforços e resultados.

Porém, muitos questionamentos surgiram em cima dessas teorias, uma vez que o que era apontado nos estudos não parecia se refletir 100% na realidade. A Economia Política e a Psicologia acabaram propondo modelos que hoje formam a Psicologia Econômica. Esses modelos são, muitas vezes, baseados em experimentos que visam testar sujeitos e suas escolhas, como por exemplo em situações de consumo, jogos e loterias. Há um grande braço ligado ao comportamento das pessoas, com sustentação na teoria do behaviorismo.

Historicamente, podemos dizer que as primeiras relações (ou até a “pré-história da psicologia econômica) vem de obras de Adam Smith, como por exemplo “A Teoria dos Sentimentos Morais” (1759) (mas não podemos deixar de citar também que desde a Antiguidade filósofos como Platão, Aristóteles, Catão e Varrão já analisavam o comportamento econômico com base na situação de escravos, ou mesmo Virgílio, Tácito e César, que discorreram sobre inflação, economia rural e psicologia dos povos). Muitos já debatiam sobre a inauguração da Psicologia Econômica, sendo desde a Grécia e Roma antiga par aalguns (Descouviers), no período após a Idade Média para outros (Reynaud). Porém, o termo “Psicologia Econômica” foi usado pela primeira vez em 1881. Em sua origem, muitos defendem que a Psicologia Econômica surgiu a partir da Psicologia Social. A Psicologia Organizacional e do Trabalho também contribuíram para o nascimento desta que estamos tratando neste texto, por conta de estudos que levantavam fatores comportamentais dos indivíduos e grupos das organizações, que muitas vezes se relacionavam ao assunto “Dinheiro”. Também houve uma troca de informações entre a Psicologia Econômica e a Psicologia do Consumidor, que muitas vezes acabaram se confundindo.

Um acontecimento marcante se deu a partir da década de 1940, quando George Katona, o pai da psicologia econômica moderna, criou o Índice de Sentimento do Consumidor, instrumento para avaliar o estado da economia em relação com aspectos psicológicos. Por isso, a essa época é atribuído o nascimento da Psicologia Econômica Contemporânea. Pesquisas começaram a ser desenvolvidas a partir de 1950, e, em 1970 foi fundado a Internacional Association of Applied Psychology (IAREP). Em 1976, Gery Van Veldhoven realizou o “1º Colóquio de Psicologia Econômica”.

Novas áreas começaram a surgir, derivadas da Psicologia Econômica, como a Economia Comportamental, Finanças Comportamentais, Socioeconomia, Psicologia do Consumidor, Neuroeconomia.

A partir daí, diversas pesquisas e cursos começaram a ser desenvolvidos na área, resultando, inclusive, na entrega de três prêmios Nobel da economia relacionados ao tema: Teoria da Racionalidade Limitada (Herbert Simon, 1978), Teoria do Prospecto (Daniel Kahneman, 2002) e Teoria da Contabilidade Mental (Richard Thaler, 2017).

No Brasil, os primeiros passos foram dados pela professora de Psicologia da Universidade Federal do Pará, Alice Moreira, que criou uma linha de pesquisa em Psicologia Econômica no programa de mestrado, em 1999. Em 2005, Vera Rita M. Ferreira e Sigmar Malvezzi criaram na Faculdade de Psicologia da PUC-SP um curso de Psicanálise e Psicologia Econômica. Vera ministra cursos na área até hoje e é autora de livros que inspiraram este texto, como por exemplo “Decisões Econômicas” e “Psicologia Econômica – Estudo do Comportamento Econômico e Tomada de Decisão”.

Conforme dito anteriormente, a Psicologia Econômica surgiu para entender a razão de algumas “anomalias” relacionadas ao comportamento das pessoas perante às economias. Dessa maneira, algumas premissas forma levantadas, não consideradas pela Economia tradicional: limitações cognitivas e emocionais, influência das emoções, busca de conforto cognitivo, diferente pontos de vista, otimismo excessivo, erros de planejamento. Com base nisso tudo, pode-se dizer que não tomamos sempre as melhores decisões para nós mesmos, sendo que muitas vezes acabamos movidos por impulsos e emoções em busca do prazer imediato.

A forma como os estudos desta área são feitos envolvem modelos descritivos, métodos experimentais, levantamentos e questionários, estudos de campo, neurociência, análise de dados já consolidados e aplicações. Uma vez que são notadas as “anomalias”, a Psicologia Econômica busca encontrar e entender erros sistemáticos decorrentes de vieses gerados pelo uso de atalhos mentais, também chamados de heurísticas. Esses erros costumar estar relacionados a: otimismo e autoconfiança exagerados, aversão à perda e problemas na avaliação de risco, desconto hiperbólico subjetivo no tempo, contabilidade mental, ancoragem e framing, falácia dos custos irrecuperáveis, e por ai vai.

O ato de Decidir se apoia nos passos antecedentes da percepção e avaliação das condições oferecidas, sendo necessário o tempo todo a atenção e um bom planejamento para não cairmos em “armadilhas” que estão presentes o tempo todo em nosso cotidiano. Veja alguns exemplos:

  1. Dissonância Cognitiva: quando estamos diante de fatos ou ideias contraditórios, procuramos dissolver o desconforto, pendendo para um dos lados. Exemplo: fumante que, mesmo sabendo que fumar faz mal, continua a fumar, pois acredita que os problemas só virão quando for mais velho
  2. Efeito de ancoragem: ficamos amarrados em determinados números, o que pode prejudicar nossas decisões: Exemplo: situação da compra de um apartamento. Um dos apartamentos, mais barato, custa R$ 200 mil mas precisa de uma reforma. O segundo, no valor de R$ 210 mil já está pronto para morar. Muita gente acaba escolhendo a primeira opção por se prender apenas no valor da compra, deixando de lado o custo que será necessário com a reforma, que muitas vezes, pode até ultrapassar o valor do apartamento pronto para morar.
  3. Pirâmide: trata-se de esquemas onde os “espertões” que criam a fórmula do sucesso atraem pessoas para seu negócio, sendo que o objetivo do negócio é sempre atrair novas pessoas, e estas, quando entram no negócio, precisam pagar. Por isso o nome pirâmide, que suste o topo da pirâmide acabam sendo estas pessoas que vão entrando e formando a base, e, acabam só perdendo seu dinheiro num “investimento ilusório”.
  4. Comportamento manada: é o comportamento popularmente conhecido como “maria vai com as outras”. Pessoas ouvem conhecidos falarem, ou às vezes até na mídia, sobre algum investimento interessante e acabam entrando na onda, sem nem ao menos ter pesquisado sobre o assunto. Em muitos casos, o resultado disso é que quem entrou depois já pega a hora que o investimento já não era mais tão rentável.
  5. Informações demais: este é o típico caso que nos é apresentado quando vamos ao banco e o gerente nos mostra aqueles montes de documentos para assinar, com letras miúdas e termos técnicos, o que dificulta o real entendimento do produto ou serviço.
  6. Contabilidade mental: é o caso em que tomamos as decisões financeiras irracionais motivadas por uma necessidade imediata. Muitas vezes acabamos fazendo a pior escolha por conta da falta de tempo para refletir e pela busca da comodidade.
  7. Aversão à perda: experimentos mostram que nós temos aversão à perda, e não à riscos, e mais do que isso, o sentimento que temos em perder um valor é muito maior (tristeza) do que o sentimento que temos quando ganhamos esse mesmo valor.

Todas estas “armadilhas”, assim como outras, estão presentes no livro “Decisões Econômicas – Você já parou para pensar”, da Vera Rita de Mello Ferreira. Devemos ter uma boa educação financeira, com planejamentos e metas bem definidos, além de nos exercitarmos para que nossos hábitos nos levem a aproveitar nossa vida agora sem comprometer nosso futuro, caso contrário, o número de armadilhas que estão armadas para nos pegar cada vez cresce mais.












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