Sábado, 17 de Agosto de 2019

Dhian Carlos Thierizi

Dhian Carlos é um jardineiro iniciante.

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A Chuva e a Merda



A chuva fazia sua sinfonia.

Um casal passava abraçado. Dois corpos praticamente fundidos, tentando escapar de cada pingo.

Um senso de proteção irrefutável. Acredito que na chuva podemos notar com mais facilidade o amor.

Notei com facilidade um rato morto. Morreu gordo. Estava preso nos entulhos que a chuva não tinha levado. Estava de barriga para cima. Parece que morreu sorrindo. Cutuquei seu corpo cuidadosamente com o bico do meu sapato (encharcado) e o desprendi de toda aquela bagunça. A correnteza o levou até a próxima boca de lobo. Imagino que nas entranhas do subterrâneo ele encontrou um funeral mais digno.

Não faltava muito para chegar à casa do meu amigo. De qualquer maneira, estava indiferente. A pressa que a chuva deveria trazer não me atingia. Ela era uma matriz de esperanças.  Tudo parecia pleno e honesto e de uma beleza vanguardista.

O cabelo das mulheres.

As rodas dos carros.

A casca das árvores.

Latas de lixo.

Passei sob o último viaduto antes de ingressar no bairro do meu amigo. As infiltrações faziam das gotas uma brincadeira de ligue os pontos. Em um dos cantos, uma frase em espanhol. No outro alguém escreveu que o amor ainda é importante. Não via mendigos. Não via fogueiras.

Procurei por ratos. Não encontrei. Talvez eles estivessem no funeral do gordão.

Meu amigo me liga. Não atendo.

Minha velha jaqueta aguentou o máximo que pode. Encharcou-se

Eu sentia frio. Todo o choro dos céus encontrou o alento que precisava em meu corpo.

Passei por um posto de gasolina, uma borracharia e um supermercado.

Entrei na rua do meu amigo. Sons que parecem músicas saiam abafados da maioria das casas.

Toquei a campainha.

O portão é grande. Parece mais um portão industrial.

Meu amigo abriu.

Ele estava com uma capa de chuva e com uma vasilha de plástico na mão.

Achei engraçada a combinação de objetos.

Ele me puxou rapidamente para a garagem e muito antes do que qualquer coisa, disse:

-Brother.

-O quê?

-Vou cagar na calçada do cara que está com a minha ex-namorada!

-De onde você tirou uma coisa dessas?

-Ainda não tirei. Mas ela já está pronta.

-Por Deus cara! Você vai sair por aí, mostrar a bunda. É na rua cara! É na rua!

-Ninguém vai ver! É uma decisão estratégica. Olha essa chuva! Não tem ninguém na rua, não tem ninguém pra ver!

-Então brother! A chuva vai levar a merda embora. Vai ser inútil.

-Não, não. Vou cagar e cobrir com a vasilha. Bem juntinho ao portão dele. Foda-se! Cago, toco a campainha e saio correndo.

-Mas o cara é seu vizinho!

-O cara é meu vizinho e tá sapecando minha ex. Darei um exemplo contextualizado da merda que ele está fazendo.

-Ele vai desconfiar de você.

-O que é uma ferida a mais para um larazento, não é mesmo?

Meu amigo pediu para que eu ficasse de olho na rua. Realmente não havia ninguém circulando. A chuva havia diminuído mas o sol estava longe de acordar.

Sua cagada foi perfeita. Um monte gigante de merda. Um monte gigante, triste e fumacento de merda.

Ele cobriu com a vasilha.

Ele tocou a campainha.

Eu que estava perto do portão, entrei rapidamente. Ele chegou logo depois.

A casa do meu amigo era mais elevada em relação à da vítima. O muro lateral não era alto o suficiente para impedir nossa visão. Da garagem dava para observar todo o quintal dele.

Percebemos quando ele desceu para atender.

Ele abriu o portão.  

Aparecia apenas uma parte do seu corpo. Ele se abaixou.

-Puuuuuuuuuuuuuuuuta que pariu!

O berro ecoou.

Vimos a vasilha em sua mão esquerda. Vimos a vasilha ser arremessada com violência para o meio da rua.

Ele voltou balançando a cabeça com terríveis gestos de desaprovação.

Logo apareceu com uma mangueira.

Tinha sido o suficiente para cairmos no mais extasiante riso.

Vibramos. Cerramos os punhos e balançamos os antebraços para cima e para baixo. Tínhamos feito um gol! Um gol na cagada.

Duas semanas depois, meu amigo foi violentamente espancado. Realmente foram mais algumas feridas para a sua lazarenta coleção.

De qualquer forma, essa retaliação não tirou o brilho, a originalidade e a coragem de sua atitude vingativa.

Eu nunca mais vou esquecer daquele dia de chuva.

Da chuva e da merda.










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