Domingo, 17 de Fevereiro de 2019

Dhian Carlos Thierizi

Dhian Carlos é um jardineiro iniciante.

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A Geladeira



Acordo. Na cama tem coisa pra comer. Ela.

Reluto. Quero minha geladeira. Na minha geladeira tem um peru. O peito dele.

É como se o reino animal passasse por moedores, trituradores, cortadores e viesse parar dentro da minha geladeira.

Pego o peito. Ele está do lado do frango. Frango desfiado.

Desfiadores. Incluído.

O pão vem do pacote. É integral. Como deve ser para um pão com tanta integridade ser comido repetidas vezes? Besteira de associação. Dou risada.

Na mesa tem pão, peru e pera.

“Pega no meu e cheira”

Hahaha...

Ligo a TV.

A comida da cama levanta. A comida que não passou por nada. A comida inteira.

Ela pede para eu voltar pro quarto.

Eu digo que já comi. Ela me diz que isso foi ontem. Eu falo que foi agora. Faço indicação para o prato. Ela volta zangada para a cama.

Eu vou para o banheiro.

Passo por ela.

Demoro. Deixo a água quente cair no ombro esquerdo. Ele dói. Dói bastante. Dor que nunca para.

Programo o dia de hoje: carro, rua, restaurante japonês, banho, punheta, cama, academia, outro banho, carro, rua...

Saio do chuveiro. A água escorre pelos dois ralos. O do banheiro e o da minha nova tatuagem. Uma vez li um livro cujo ralo era um dos personagens principais. Achei intrigante e tatuei. Foda-se.

Quando saio percebo que ela voltou para a embalagem de ontem. O mesmo vestido preto. Fico parcialmente excitado. Meu pau quase sai da toalha, a exemplo daqueles olhinhos que saem do submarino para observar os inimigos. Ela balança os cabelos. Mexe no vestido fazendo um ajuste desnecessário.

Ela sabe que é gostosa e sabe como deixar-me integralmente excitado.

Deixo a toalha cair no chão.

Ela pensa que tipo de não dará antes do sim. Tenho que ser rápido, se não eu perco o programa da Discovery. Levo-a para a cozinha.

A TV está ligada. Fico com o olho no peixe e o outro na gata.

Chego forte, acontece na cadeira mesmo. Assim não preciso tirar a embalagem. Ela me chama de safado e de cachorro. Tento lembrar se tenho cachorro na geladeira. Será aquele do lado do camarão? Preocupo-me, seria canibalismo.

Gozei rápido. Cinco, talvez sete minutos. Segurei firme nas duas covinhas acima da bunda. “Os famosos reservatórios de porra”, como diz um amigo meu.

Hoje não foram.

Ela vai embora feliz. Ela me ama. Eu acho isso patético.

Patético vem de pato? Acho que tenho um na geladeira.

O programa da Discovery falava dos índios. Relatava sua influência na cultura, na história e na linguagem.

Eu os detesto. Não tanto quanto os europeus, mas detesto.

Que frustrante esperar por essa porcaria de programa.

Desligo a TV. Agora é a hora do carro. Quando saio do apartamento, o porteiro me cumprimenta e deseja bom dia. Meu sorriso é magro. Pelo retrovisor faço a leitura labial e percebo a palavra puta. Se fosse a última, seria filho de uma puta! Mas poderia ser a do meio: vai pra puta que pariu!

Vou pra rua.

Uma hora da tarde. Do lado da avenida uma massa de gente feia espera pelos ônibus. Quando eles encostam, aí o pau quebra. É aquela briga pelos assentos. Às vezes penso que os assentos são deuses. Por isso essa devoção. As pessoas pensam: “Deus me fode constantemente, não custa nada eu ir atrás de outro que dê o mínimo de conforto pra minha bunda”.

Quando entro no restaurante japonês e consigo um agradável lugar, percebo que não é tão agradável a reação do casal ao lado quando vê que o Temaki não está bem enrolado. O garçom leva aquela rica e delicada fumada e volta com o prato pra cozinha. Será que ele dará uma pobre e grosseira cuspida ao refazer? Acho que não. Ele é Japonês.

Muito provavelmente decepará o próprio dedo como forma de pedir desculpas.

Como peixes grelhados e crus.

Dizem que os peixes não sentem dor.

Se isso for verdade, não passam pelo mesmo sofrimento dos outros animais.

De qualquer forma, isso não me abala. Desde, é claro, que o sofrimento não venha a alterar o sabor da carne.

Pelo vidro transparente que separa a cozinha da área de alimentação, avisto uma linda geladeira: forte, branca, imponente. Perto do caixa, tem mais uma: essa é tímida, pequenina e colorida.

Cada uma com a sua característica. Cada uma cumprindo seu papel de forma exemplar. Por um momento penso em levá-las para meu apartamento.

Mas é claro que isso não passa de um devaneio absurdo. Coisa de homem.

Parte de nossa essência: cobiça, desejo, fetiche.

Eu tenho a minha querida geladeira. Ela me satisfaz.

Estou feliz assim e quero continuar assim.

Os apelos mundanos estão por aí e querem nos foder. Querem acabar com o que construímos. Querem acabar com a nossa família.

Eu sou uma boa pessoa. Não quero passar por isso.

Espero que isso seja suficiente. Espero que minha geladeira não desconfie de mim.

Eu só quero que ela não pense que sou um cara frio.












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