Domingo, 18 de Agosto de 2019

Dhian Carlos Thierizi

Dhian Carlos é um jardineiro iniciante.

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Amigos, Merenda do Colégio e Mulheres.



As meninas do colégio não gostavam de mim.

Era como um feio, assustador e esquisito animal.

Um jogo desleal onde quem entrava em campo eram minhas botinas, blusas de lã, meias sociais e uniformes sujos com manchas remanescentes de barro.

Isso poderia ser bem triste, mas era só triste.

Não me sentia intimidado. As garotas estavam em terceiro lugar na lista de preferências.

Eu tinha meus amigos e a merenda do colégio.

Por isso que fiquei petrificado quando a namorada de um amigo disse que ia me apresentar uma de suas amigas.

Santo Deus!

O que poderia fazer?

O que iria dizer?

"Hey, você sabe jogar Tazo?"

Não sei por que fui o escolhido.

Aquilo era uma generosidade descartável.

A garota, que estudava numa sala do mesmo corredor, ficou de mãos dadas comigo logo após nosso cumprimento. Encarnou de maneira surpreendente o status de namorada.

E olha que mãos dadas naquela época era um excelente começo.

Hoje, uma mão só encontra a outra caso as duas estejam sem celular.

Sempre paguei caro por pensar demais e, essa atitude, (mesmo que não estivesse em condições de fazer exigências) deixou-me intrigado.

Quantas variáveis poderiam estar envolvidas?

Poderiam ser os hormônios.

Poderia ser uma aposta que ela fez com ela mesma.

Poderia ter sido uma aposta que ela perdeu.

Poderia ser um voto de confiança para a amiga que arrumou o esquema.

Poderia ser pena.

Poderia ser desespero.

Poderia ser tanta coisa, menos uma escolha consciente.

Exagero?

Excesso de integridade ou orgulho da minha parte?

Meu dever como homem era aproveitar a situação?

Eu não saberia aproveitar.

Nós não saberíamos aproveitar.

De nada adiantaram as reflexões.

Não tomei uma atitude de bate-pronto.

As mãos dadas viraram uma constante: um alto e magro espectro sendo arrastado por entre as carteiras da sala, pelos corredores, pelo colégio, pelas ruas perto do colégio.

Eu me sentia um idiota e me perguntava se ela sentia o mesmo.

Meus amigos tiveram uma condescendência admirável. Não exploraram pelo lado da gozação.

“Vai lá cara, é o seu momento!”

Mas eles não entendiam. Eu queria estar com eles.

Passamos anos e anos como coadjuvantes, sofrendo torturas físicas e psicológicas por parte das classes que estavam a nossa frente. Era a nossa vez de comandar e eu não queria perder isso.

Era o mentor intelectual de um grupo pronto para realizar as mais maléficas ações.

Além do mais, a merenda do colégio era maravilhosa. Não tinha tanta diversidade na minha casa. Eu precisava desesperadamente da hora do intervalo!

“Nossa relação” atravessou uns dois meses.

Não lembro o tipo de conversa que tínhamos.

Lembro-me das mãos dadas.

Casal cola instantânea.

Certo dia, após o sinal para o intervalo, ela me interceptou na saída da sala, pegou na minha mão e disse:

- Onde vamos conversar hoje? Ficaremos sentados perto da quadra?

Eu disse:

- Não, hoje não ficaremos juntos. Vou comer a merenda com os meus amigos.

Soltei a mão dela. Aconteceu de uma forma inimaginavelmente natural.

Dei de ombros e caminhei pelo corredor. Postura vitoriosa, como se tivesse ganhado aquela briga de final da aula que nunca tive.

Sai caminhando em direção à polenta com almondega, ao arroz com feijão e carne moída, ao macarrão com salsicha, ao cereal, ao sanduíche de presunto com maionese de R$ 0,50.

Saí caminhando em direção à felicidade. Ao que era felicidade pra mim naquele momento.

Não sei por que tomei essa súbita atitude. Lembrei-me de algo que meu pai sempre diz e que, provavelmente, tenha ligação:

“Eu posso ser bobo, mas não sou louco.”

Ela terminou comigo (tivemos um começo?) e, na mesma semana, já estava com outro cara.

Isso me deixou satisfeito. Deu legitimidade a respeito do que pensava sobre nós dois.

Em dezembro ela me chamou pra conversar.

Sentamos no banco que ficava perto da secretaria.

Ela me pediu desculpas.

Lágrimas saíram dos seus olhos.

Olhos azuis. Um azul muito parecido com o azul das bolas de gude mais cobiçadas da época. “Burquinhas”, como a gente gostava de dizer.

Desceram pelas discretas sardas perto do nariz e pararam de encontro com sua mão.

Percebi que foi a primeira vez que tinha olhado de verdade pra ela.

Ela era linda. Uma beleza e doçura daquelas que trazem a certeza de que a pessoa será muito feliz.

Um futuro de mãos dadas com a felicidade.

Eu agradeci e disse que ela não precisava pedir desculpas.

Ela não teve culpa. Eu também não tive.

A vida é dura.

Um abraço selou nossa curiosa história.

Sai correndo em direção à fila da merenda.

Estava enorme.

Era dia de cereal.










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