Quarta-Feira, 20 de Fevereiro de 2019

Dhian Carlos Thierizi

Dhian Carlos é um jardineiro iniciante.

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Divã



- Você sabe por que está aqui?

- Não.

- Não tem nem ideia?

- Não me lembro.

- Você sabe quem você é?

- Eu sou um dos cavalos da Fazenda Sapucaia.

- Você faz o que lá?

- Eu trabalho.

- Só trabalha?

- Não. Eu trabalho muito.

- Que tipo de trabalho?

- Eu puxo cargas.

- Que tipo de cargas?

- Quase tudo. Madeira, grãos, pessoas, frutas...

- Você é único cavalo designado para isso?

- Sim.

- Por quê? A fazenda tem tantos cavalos...

- Acho que os outros cavalos fazem outras coisas.

- Que coisas?

- Tem os da hípica, que carregam aquelas mulheres bonitas e elegantes.

- Quais mais?

- Tem aqueles que vivem viajando pra participar das corridas.

- Mais algum?

- Alguns vão pra rodeios, cavalgadas, romarias.

- Você tem vontade de fazer essas coisas?

- Tenho.

- Já pediu?

- Já, várias vezes.

- E?

- Negaram.

- Você insistiu ou perguntou o porquê?

- Fiz os dois. Disseram-me não novamente e pediram para eu ter calma.

- Você já se perguntou por que é tão diferente dos outros cavalos?

- Você já se perguntou por que é tão diferente dos outros homens?

- Como assim?

- Você é feio.

- Mas existem outros homens feios.

- Iguais a você, não.

- O que quero dizer é se você nunca reparou no quanto suas características são distintas dos outros cavalos...

- Seja mais claro, Doutor.

- Nunca perguntou a si mesmo por que suas orelhas são maiores, seu jeito de falar é diferente, assim como seu tamanho, sua pelagem, seu jeito de correr...

- Já cheguei a pensar nisso. Já cheguei a pensar também se me tratam diferente porque eu sou diferente. Mas tenho evitado pensar ou tenho pensado pouco. Porque quando penso, dói. Porque quando penso, incomoda.

Doutor...

- Diga.

- Tô cansado, quero ir embora.

- Ok filho. Terminamos por hoje. Levante-se devagar. O Nogueira está te esperando do lado de fora. Antes de vocês irem, peça para ele vir até minha sala. É breve o que tenho pra falar com ele.

 

- E aí Doutor? Nada? Você não falou nada?

- Não, Nogueira, ainda não.

- Pelo amor de Deus! Ele tá acabando com tudo!

- É um processo delicado, Nogueira.

- Delicado será explicar pra nosso melhor cliente porque ele e seu cavalo foram perseguidos por um jumento em pleno campo de treinamento da hípica. Ele continua nessa de se envolver nas atividades dos cavalos. O senhor tem que contar pra ele!

- Ele se lembra de pouca coisa, Nogueira.  Fica grogue depois desses ataques... E essas doses de tranquilizante estão fazendo muito mal pra ele. Tenho de recomeçar sempre do zero.

- Os chefes vão mandar ele pro quiabo, Doutor. Tá dando muito trabalho. Conta logo pra ele que ele é um jumento! Eu gosto do jeito dele, mas tadinho, não merece viver nessa teimosia, nessa doidice.

- Ainda é cedo, Nogueira. Traga ele pra sessão da semana que vem. E pelo amor de Deus! Traga-o consciente! Não o deixe escapar por aí, diminua a carga de trabalho, vamos dar continuidade e evolução dessa forma.

- Tudo bem. Ainda acho que o senhor tá enrolando.

- Nogueira, você já ouviu falar de Stephen King?

- Nunca vi mais esquisito.

- Ele é um escritor.

- E o que esse cara tem a ver com tudo isso?

- Em um de seus contos, chamado O Corpo, ele diz o seguinte: “As coisas mais importantes são as mais difíceis de expressar.”

- Eu prefiro filmes, Doutor.

 

 

 

 

 

 












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