Quarta-Feira, 20 de Fevereiro de 2019

Dhian Carlos Thierizi

Dhian Carlos é um jardineiro iniciante.

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Doce de Mamão com Coco



O café quente amado pela Mãe domina a cozinha com seu cheiro.

Sento à mesa e penso se devo adicionar o leite.

Cabisbaixo, percebo que minhas calças estão folgadas.

Calças caindo do corpo que cai aos pedaços.

A camisa deve dar duas de mim.

Preciso me alimentar. Preciso me iludir, na verdade. Nunca comerei o suficiente para repor esse esforço maldito que faço.

O biscoito wafer tá mais murcho que teta de prostituta barata.

Minha Mãe coloca a mortadela na mesa.

 

- A senhora tá encucada com alguma coisa, mãe? Olha só suas unhas...

- Não, Fio. Nem tenho roído as unhas.

-Não mesmo, né? Já tá na carne viva... Quando vai começar a comer os dedos?

-Ah! Deixa a Mãe!

 

O pão de ontem ganha sua vez hoje. Coloco duas fatias de mortadela. Duas fatias de mortadela são suficientes pra fazer um sanduíche digno. Mais de duas é fogo no cu.

O sanduíche fica macio. Combina bem com o pingado.

Pingado...

Acho que é mais que pingado. Tá quase meio a meio.

Que idiotice!

Pingado é o meu pinguelo!

A porta da cozinha está aberta e dá pra ver o Vardeci trabalhando na horta do pessoal da mercearia vizinha.

Ele acena e grita:

 

-Fala Parmerense!

-Só alegria, né?

-Pelamor, até que enfim! Meu São Paulo que tá feio...

-Tá tudo estranho ultimamente, Vardeci. Pra você ter ideia, a única coisa que tem me dado alegria é o Parmera. Meu Deus, o Parmera! Hahahaha...

-Sua felicidade voltou com tudo da série B. -  Finaliza Vardeci, antes de concentrar-se novamente na lida das hortaliças.

Minha Mãe, que acompanhava a conversa, pergunta:

 

-Você não tá feliz, Fio?

-Tô sim, Mãe. Olha minhas unhas, tão inteirinhas!

-Ah, besta!

-E esse cabelo aí, quando a gente vai pintar?

-Já disse que nunca, Fio.

-Coisa de igreja, né? E o cabelo bonito que Jesus tinha? Certeza que pintava ou fazia alguma hidratação.

-Vou colocar seu nome na oração! – Finaliza Mamãe, horrorizada com minha piada.

 

Eu também finalizo o café da manhã.

Vou ao banheiro retirar os farelos de pão da barba e passar o protetor solar.

O urucum do índio que vai para a dança da morte.

FPS 50.

50 motivos pra acreditar que o sol é um filho de uma puta chamada desesperança.

Quando saio, cruzo a cozinha e na pequena área dos fundos, começo a calçar minha botina, sou interrompido por minha mãe:

 

 -Olha aqui, tem aquele doce de mamão com coco igualzinho ao que a Vó fazia pro seu Pai. Esqueci de te falar...

-Ôooo, quero sim. Dá uma colher pra mim.

 

Doce maravilhoso de uma realidade amarga.

Tenho saudade de quando minha Vó lembrava das coisas.

Tenho saudade de quando meu Pai estava vivo.












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