Domingo, 22 de Maio de 2022

Thiane Ávila

Estudante de comunicação social, já atuou como professora de Língua Portuguesa e Inglesa. Seu gosto pela escrita foi percebido e trabalhado desde muito cedo, levando-a a, hoje em dia, manter um blog pessoal com postagens regulares de textos autorais.

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Eles cantam, e eu, como não sei cantar, escrevo



Os pássaros cantam, agora, qualquer coisa parecida com adeus. Como se clamassem, num monossílabo onomatopeico, a ousadia de abandonar. A pureza simples e serena de não querer pertencer. E isso ser o suficiente para sair. Largar. Seja como fuga ou despretensão. Interpretando como dor ou excesso de ternura. Deixar para trás como forma de andar para frente - ou simplesmente voar no plano do indirigível, com vontade unânime de começar tudo de novo e outra vez. 

No badalar das asas, na magistratura da interferência quase inóspita das nossas localizações vazias e completamente perdidas, angariamos elementos que pensamos ser verdadeiros para seguir. Sem definições ou ideias bem elaboradas, enjandramos o plano do século para a vida em um segundo. Em um momento de lucidez precoce e estúpida. Nas tardes de qualquer dia que amanheça propenso à vida, liquido as brechas na transparência dos espaços inteiros postos à prova. Não quero lacunas, quero vazios inteiros de fins límpidos e começos menos líquidos. Menos simplórios. Mais simples, pois. 

Junto ao som do que prefere o céu, escuto, agora, a oposição que gera fumaça e ansiedade. Que nos faz, pois, acreditar na imensidão incurável das proposições impostas. A vida, num contexto distorcido, parece fazer sentido. Agora, no entanto, apresenta-se a mim como a mais estúpida das crenças. Num ceticismo absoluto e incurável, olho para a infinitude de um céu que tudo contorna. De águas que, por empatia ou seja lá como que se queira chamar, apiedam-se da nossa resiliência endeusada. Acredito, ao viver o instante que me intercruza e ao respirar esse ar menos tóxico pela presença do verde que se faz colchão em minhas costas, que o fim seja mesmo ao som de um assovio forte e perplexo de calmaria e desajuste. Desajustados nós que balburdiamos quando o silêncio é a música perfeita. Açoiteiros dos recantos perdidos que julgamos estarem plenamente encontrados. Pobres coitados os permanentes. 

Mais uma vez, como que para confirmar a calma que dá lugar, por instantes minúsculos, àquele ocupado pela ansiedade cotidiana, ouço, no céu, a humanização das asas. O provável incômodo que não se limita às fronteiras terrenas. Invadimos tudo. Queria eu, agora, poder dividir o espaço em cima das árvores e não apenas sobre os balanços. Cortar a grama escura que apodrece, encontrando o lugar para as sementes que trago nessa viagem prestes a terminar. Talvez, e agora me dou conta de modo especial, essas transcrições de devaneios brutos e mal lapidados sejam, por fim, a herança a ninguém que deixo brotar como chama que se liberta daquilo que abafa e oprime. Palavras são libertações. Eles cantam, e eu, como não sei cantar, escrevo. 

 

THIANE ÁVILA.












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