Segunda-Feira, 8 de Agosto de 2022

Vander Christian

Vander Christian é apaixonado pelo mundo da leitura e escrita. Autor dos romances KARINA, PASSADO E PRESENTE, DUAS VEZES PAMELA MONTEIRO e GENTE MALA OU GENTE BOA e outras crônicas.

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Espanto



Ainda me lembro da expressão dos meus pais quando cheguei em casa com um livro pela primeira vez. Era uma expressão tipo: “Isso é mesmo um livro”?

Baixei a cabeça e segui para o meu quarto sem dar explicação nenhuma. Talvez o motivo do espanto fosse a quantidade de páginas do livro, pensei, embora 252 páginas, na minha opinião, não fosse motivo para causar espanto. Mas poderia ser também o nome, afinal o livro se chamava Morte Nas Nuvens.

Contudo, cheguei a conclusão de que não havia nada de errado com o livro que eu pegara emprestado na biblioteca da escola em que eu estudava. O motivo para as reações de espanto dos meus pais era eu. Acho que eu nunca tinha demonstrado interesse por livros até aquele dia, por isso eles acharam estranho, de repente, eu chegar em casa com um livro para ler. E foram tantos depois desse. Até a minha mãe começou a ler os livros depois que eu terminava a leitura. Apresentei a magia dos livros para ela. E eu só tinha entre doze e treze anos!

Imagino a reação dos pais de hoje, ao ver o filho chegando com um livro em casa. Vivemos num mundo em que crianças desfilam por aí, exibindo um celular novo, como se fosse um troféu, mas jamais vamos vê-la andando com um livro nas mãos. Se essa criança chegar em casa com um livro, os pais talvez vão achar que ela está doente, ou coisa do tipo.

Por que decidi escrever sobre as reações dos meus pais quando viram eu entrando em casa com o meu primeiro livro nas mãos? Simples...

Na última quinta-feira presenciei algo que me deixou muito triste. Estava voltando do trabalho e passei em frente de uma escola, que estava com os portões abertos para que os alunos fossem embora. Era o último dia de aula do ano. Vários alunos estavam rasgando os livros didáticos e jogando para o alto, como se fossem penas; o vento, em questão de segundos, espalhou para todos os lados as folhas. Foram surgindo cada vez mais alunos fazendo aquela violência com os livros; elas pareciam exorcizar algo que não estavam lhes fazendo bem, e o chão foi ficando cada vez mais branco, com as folhas dos livros espalhados por toda parte. Triste ver que o monstro que estava sendo exorcizado, era um livro cheio de informações e caminhos para um futuro vencedor. Triste saber que outra pessoa jamais irá descobrir a magia que se esconde dentro das páginas de um livro. Triste saber que na verdade, não existia monstro algum para ser exorcizado. Triste de ver aquela cena de violência ali, diante de uma escola. Triste saber que mais um dia nenhuma criança irá chegar em casa com um livro nas mãos e causar espanto nos pais.    

 

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