Quarta-Feira, 26 de Junho de 2019

Augusto Branco

JOSIANE VEIGA: O drama e a beleza do amor homosexual



A trilogia de livros Rendição, Redenção, e Remissão, de tua autoria, aborda o universo GLS, mas você é heterossexual. Isto é bastante curioso. Afinal, como surgiu esta idéia de escrever romances na vertente GLS? Meu amor por esse universo não é recente. Meu primeiro casal gay foi Shurato e Gae do anime Shurato que passava na extinta rede Manchete. Eu tinha lá uns dez anos, e me via completamente apaixonada pelo par. Na época era inocente demais, mas já notava o quão forte era o sentimento que os unia. Na escola, meus colegas os chamavam de “bichinhas” e eu me via desesperada a defender o amor deles. Era estranho, ainda mais para uma criança. Contudo, onde as pessoas viam horror, eu enxergava amor. Em meados de 1998 ganhei meu primeiro computador, e comecei a procurar com afinco informações sobre eles. Descobri o YAOI (é um gênero de publicação que tem o foco em relações homossexuais entre dois homens), e me tornei “fushoji” (mulher fã de Yaoi). Esse início claramente me deu uma visão sexual da vida um pouco diferente de que têm a sociedade. Não vejo o amor por sexos, e sim por sentimentos. Se eu sentia que personagens se apaixonavam, não me importava se eram dois homens, duas mulheres, ou um homem e uma mulher... eu torcia por eles! 

Mas você também escreve livros em que os amores são heterossexuais... Sim, eu tenho livros de amores Homo e Heteros. Dedico a eles o sentimento de autora igualmente, sem distinção. Até porque, não importa o gênero, tento construir personagens fortes em todas as obras. 

E como tem sido a recepção do público aos teus livros, especialmente quando descobrem que você é heterossexual? As pessoas se surpreendem ao descobrir que não sou gay. Algumas ficam encantadas, outras revoltadas. Normalmente os heterossexuais me olham como uma pervertida, e pensam que a trilogia necessariamente é uma obra voltada a pornografia. Existe também uma pequena – ainda bem! – parcela do público GLS que pensa que só gays podem escrever sobre gays. Todavia, eu sou uma autora de ficção, e não preciso necessariamente ter vivido o que os personagens viveram para poder falar sobre eles. Mas, a verdade é que a grande maioria adora. Principalmente os mais jovens, que estão ainda “se descobrindo”. Não posso negar que adoro o carinho que recebo, os comentários, as declarações de amor... Esse sentimento com certeza sobressai todo e qualquer comentário e crítica maldosa que recebi. 

O universo retratado em teus livros tem uma forte carga sentimental e uma visão bastante poética do amor entre pessoas do mesmo sexo, apesar dos dramas e preconceitos que um relacionamento assim pode enfrentar. Como você define o universo dos teus livros? Em Rendição a história é centrada em Ken Takeshi e Kazuo Ninomura. Os dois se conhecem ainda crianças no escritório de uma agência de talentos, e o amor nasce instantaneamente. Eu lido com o fato de que são almas gêmeas, sem medo do quanto isso pode parecer piegas. Ken vem de uma família amorosa, que aceita o filho do jeito que ele é, mas Kazuo não. Este último sofre tortura psicológica e física dos pais, e se torna um adulto inseguro, incapaz de entender e aceitar os próprios sentimentos. Rendição é focado nessa aceitação, e todo o plano de fundo é a indústria do entretenimento. Já Rendenção é passado seis anos após Rendição. Ken e Kazuo já moram juntos. Ambos ainda fingem para o mundo que são heteros, mas Ken está farto da situação. Começam as crises. Não posso entregar muito, mas é minha melhor obra, sem dúvida. Todas as questões sobre o comportamento dos protagonistas em Rendição são esclarecidas nessa obra, e eu me aprofundo no passado de Kazuo, contando o horror que viveu. E o terceiro livro da série, Remissão, ainda está sendo escrito. No momento estou no capítulo 10. 

Você disse que se tornou uma “fushoji” (mulher fã de Yaoi). Pode-se dizer que tuas principais influências são da literatura Gay? Na verdade, os autores que foram fundamentais no meu crescimento são Moacyr Scliar, Érico Verissimo e Alexandre Dumas. Mas, dos três, foi Scliar meu mestre. Eu devorava seus livros, adentrava em suas obras, amava tudo que ele escrevia. Já quanto à literatura gay, apesar de ser um gênero que sofre muito no Brasil, não tendo muito espaço na mídia, eu conheci duas autoras fantásticas: Samila Lages (com A Lenda de Fausto) e Rafaela Rocha (com Escapismo). 

Além do homossexualismo, você aborda em seus livros questões como violência sexual, suicídio, e até pedofilia. Você se considera uma autora essencialmente polêmica? Bom... Alguém precisa falar sobre esses temas. Então eu falo. É simples assim. A grande maioria dos autores não tem coragem. Quando chegam a algo que possa fazer a sociedade torcer o nariz, eles simplesmente ignoram o tema. A triste realidade é que a maioria quer agradar editoras e leitores sem grande senso crítico. Por exemplo, em Rendição eu falo de aborto. É um tema polêmico, quase nenhum autor quer falar porque pode atrair críticas de ambos os lados (dos liberais e dos conservadores). EU, Josiane, SOU CONTRA o aborto. Contudo, e quando não há escolha? O que uma prostituta sem família, sem dinheiro, sem apoio e sem amor próprio pode fazer caso engravide? Ela não é capaz de amar nem a si, seria capaz de amar a uma criança? Colocar algo assim num livro cria uma situação que não agrada a muitos: pensar e se colocar na posição do personagem. É muito simples ser contra algo – contra os gays, por exemplo – quando um filho não é gay. Mas, caso seu bebê um dia chegasse a você e dissesse “mãe, amo outro homem”, será que o amaria menos? A onda politicamente correta é algo tão hipócrita que sequer dá pra mencionar. Aliás, o “correto” sempre foi falso. Basta olhar a Igreja que crítica os homossexuais, mas é assolada por casos de pedofilia.










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