Domingo, 17 de Fevereiro de 2019

Ricardo Di Carlo

Ricardo Di Carlo é ator profissional em Teatro e Cinema. Possui Especialização em Metodologia no Ensino de Artes - Eixo Temático: Processos e Práticas no Ensino do Teatro. Formou-se em Arte-Dramática e em Direção de Produção Cultural. É ator, diretor, professor, pesquisador, produtor e preparador de elenco em cinema e teatro. Como pesquisador dedica-se a estudos acadêmicos na área de formação do ator, teatro e arte-educação. Nos palcos, interpretou personagens célebres, Édipo, de Édipo Rei, de Sófocles; Puck, de O Sonho de Uma Noite de Verão, de William Shakespeare, e Bibelot, de Os Sete Gatinhos, de Nelson Rodrigues. No cinema, protagonizou Kissing Death, direção de Michelle Barllet; Morte Súbita, com sua direção; e Poderosa Adoração, filme de Leandro Cavalheiro.

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Leitura da obra: O Grito de Edvard Munch



FOTO: THE NATIONAL GALLERY. (2014)

 

            O Grito, de Edvard Munch – título original: Skrik – datado de 1893, é uma obra ícone do movimento expressionista. Ela reflete os interesses dos artistas que buscavam não mais, realismo ou harmonia estética, ao contrário, era do interesse deles expor o interior do homem, seu estado de alma, expor o que os olhos não viam. Para isso não bastavam linhas retas, ou o traço que reproduzisse a realidade vista pelos olhos, mas sim a estado da alma. Isto era essencialmente, muito mais complexo de expor em uma obra pictórica. Tornou-se necessário o uso da subjetividade, as formas e as cores, já não podiam ser as mesmas, os signos pictóricos precisavam ser desconstruídos, e enfim reconstruídos. Isso tudo, o quadro de Munch, concebeu e, muito bem.

 

TABELA 1: FICHA CATALOGRÁFICA DA OBRA “O GRITO”, DE EDVARD MUNCH.

FICHA CATALOGRÁFICA

Autor

Edvard Munch (1863-1944)

Título

O grito (nome original: Skrik)

Data

1823

Técnica

Óleo e pastel sobre cartão

Dimensões

(91X 73,5 cm)

Movimento

Expressionismo

Localização

The National Gallery (Galeria Nacional, de Oslo), situada em Oslo, Noruega.

FONTE: THE NATIONAL GALLERY (2014).

 

Ao materializar o Grito, Munch, nos trouxe uma das obras mais sensíveis e essenciais sobre o homem. Adquirindo até, uma esfera mitológica. É comum a difusão ou contato das pessoas com essa obra, por mais que não se tenha a precisão acadêmica/artística em sua análise. É difícil estabelecer na memória qual foi o primeiro contato que tivemos com “O Grito”, de Munch. É certo dizer, que ao pintar aquela figura esquálida, Munch, descortinou um estado de alma, e o traduziu em forma de imagem.

Os dilemas da solidão, o entrestecimento/tristeza, a degradação da doença ou a sua chegada, a loucura em estágio avançado ou seu primeiro rompante interior, a dor ou o toque de um mal insuportável, talvez não evocado, mas com certeza presentificado, pura e simplesmente no estado de alma daquela figura. Tudo isso é possível. Não conseguimos dizer, que angústia aquele ser está passando, mas depreende-se que está angustiado, chegando a praticamente ouvir-se o grito, ao contemplar a obra.

Não podemos afirmar que se tratava de insanidade, já que o próprio expressionismo buscava mostrar o que os olhos não vêem. Neste caso, a imagem pode referir-se a um simples rompante interno de conflito, um lapso da psiquê. Não conseguimos dizer, que se trata de um homem ou de uma mulher, mas certamente é uma alma. Um alguém, que precisa gritar. Podendo esse alguém ter alterado o cosmos em que habitava. Fato é, que na obra visualizamos, através dos traços da pintura, que tudo se converge para a figura central da pintura, o ambiente, também está alterado. Ou, numa outra possível leitura, o cosmos a consome, uma vez que parece ser aquela figura humana literalmente sugada pela sucção dos elementos da natureza, presentes na imagem (água e céu). Vale notar que as pessoas distantes da protagonista da imagem não estão onduladas, e aproximam-se mais da realidade, assim como o chão e as pilastras de madeira. É válido mencionar que a base corpórea do protagonista, também não é exposta, e que, portanto, ela pode não ter seus pés tocando o chão. A proporção do corpo da personagem principal da obra, além de não simétrica, é desproporcional. Seu tronco é alongado, o que também pode indicar sucção.

Outro ponto importante é que próximo ao personagem principal, o fundo que o circunda é composto por cores frias, indicando um estado de alma em  tristeza, depressão e desespero. As mãos que cobrem os ouvidos podem indicar tanto que a personagem profere um grito que atinge o cosmos, como também, de que é atingida pelo cosmos, e ao não suportar tamanha pressão, fecha os ouvidos e grita em desespero.

Nas águas, que a circundam o azul é escuro e turvo, chegado ao meio, que vai em direção a cabeça da personagem, o tom chega a tal escurecimento que forma-se um buraco negro nas águas. Enquanto que os barcos com passageiros, que estão não tão distantes é rodeado por águas claras e, além da tormenta que atingem a região proximal do protagonista. Talvez, isso pode indicar que o mundo possa estar em conformidade com a normalidade, mas não para o protagonista, que internamente, a tormenta existe somente no seu estado de alma.

O fato de o protagonista estar com os olhos arregalados, de costas para o céu de cores muito quentes, que parece ter força suficiente para movimentar as águas, pode sugerir que o medo da figura temerosa vem do que está atrás dela, e o seu pavor possa nascer de uma alucinação de instabilidade do cosmos que deseja devorá-la. Será uma referencia ao mito de Édipo e a Esfinge? “Decifra-me ou te devoro”. Os artistas expressionistas, eram questionadores, refutaram o passado, mas tal como os antigos, também abordaram o homem de afirmações e indagações sobre si próprio, e em relação ao universo que habita, de modo que constituíram um movimento de vanguarda que pensava nesse homem que se encontrava em conflito consigo mesmo e com o seu redor.

A solidão do personagem nos suscitam coisas, como: vivemos juntos, mas o certo é que vivemos sós. As reflexões da alma humana se fazem presentes, nesta imagem. Ninguém, pode viver pelo outro, as suas dores, suas aflições, e nem por consequência a morte, poderá ser dividida, senão encarada tão somente de maneira individual. Existe uma assimilação em solo do indivíduo em face da morte, e não só dela, mas fatos que serão vividos individualmente. Entretanto, não deixa de ser a partilha algo que alivia, e talvez por isso, o grito de desespero indique a solidão do indivíduo, destituído do refrigério do contato com o outro.

Corporificadas pictoriamente, em O Grito vemos características do expressionismo, tais como: o belo horrível, a subjetividade do artista, a rejeição de regras clássicas e a originalidade. Gombrich (1976, p. 406), nos diz que “o rosto da pessoa que grita com os olhos arregalados e a face encovada lembram a cabeça de um morto”. O que é relevante, uma vez que, era característica dos expressionistas a relação com o lado mítico da vida. O referido autor ainda diz que “algo terrível deve ter acontecido e é tanto mais inquietante porque nunca saberemos o que este grito significou” (GOMBRICH, 1976, p. 406). Neste sentido, ao ter aplicado em tela um grito de angústia, Munch buscava a autenticidade, uma vez que a vida não possui apenas o lado agradável; os expressionistas eram extremamente sensíveis aos sofrimentos humanos, a violência e a paixão.

Chipp (1996, p. 122-123) diz que os artistas que vinham desse movimento (expressionismo) “usaram a deformação em proveito de uma nova harmonia pictórica e que isso foi provocado pela necessidade subjetiva de encontrar equivalentes para os seus conflitos e isolamento”. Adiante o referido autor, afirma que estes artistas “viam na arte a materialização do espírito”. Ainda sobre os caminhos dos expressionistas, Chipp (1996) afirma que as experiências realizadas em suas obras, com as cores e as figuras disformes; tinham a esperança de alcançar efeitos físicos e psicológicos (CHIPP, 1996, p. 122-123).

Se todas as obras expressionistas alcançaram este objetivo, é difícil dizer, mas é certo dizer que Munch, com seu Skrik (O grito), de fato o fez. Presenteando a humanidade com o humano, o espírito, o descortinamento d’alma, a expressão artística, a liberação do instinto, a renovação da subjetividade do artista, a libertação de preceitos estéticos. De modo a deixar um legado de expressão artística e humana, tão forte quanto o seu traço firme.

REFERÊNCIAS

CHIPP, Herschel Browning. Teorias da arte moderna. São Paulo: Martins Fontes: p. 121–124, 1996.

GOMBRICH, E. H. A história da arte. Rio de Janeiro: Edita Guanabara, 1976.

THE NATIONAL GALLERY. Ficha catalográfica e foto do quadro “O Grito”, de Edvard Munch. Disponível em: <http://www.digitaltmuseum.no/things/skrik-maleri/NMK-B/NG.M.00939?query=edvard+munch,+skrik&search_context=1&count=9&pos=3>. Acesso em: 24/05/2014.












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