Quarta-Feira, 18 de Maio de 2022

Thiane Ávila

Estudante de comunicação social, já atuou como professora de Língua Portuguesa e Inglesa. Seu gosto pela escrita foi percebido e trabalhado desde muito cedo, levando-a a, hoje em dia, manter um blog pessoal com postagens regulares de textos autorais.

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Mãe, eu sou doente



Mãe, você está vendo tudo isso que está acontecendo? Dizem que sou doente. Pior que isso, querem me fazer acreditar que, de fato, sou. A padronização não excluiu nem as retóricas do amor, mãe. Veja que coisa: descobri uma doença nascida do amor e materializada pelo sexo, pelo desejo, pelo querer bem. Você sabe, mãe, que eu não sou a filha perfeita. Agora estão redimensionando esse patamar de imperfeição, gerenciando minhas faculdades mentais. Provendo meu livre-arbítrio de nenhuma liberdade.

Parecia que as coisas iam bem. Que as pessoas evoluíam e que a justiça, os direitos e a providência do bem estavam ganhando espaço de fala. A diferença já não parecia ser horrenda aos olhos, e as pessoas pareciam estar aprendendo a se respeitar cada vez mais. Eu consegui ocupar meu espaço, mãe. Você sabe que não foi fácil remar contra a maré, “decepcionar” tanta gente. Ser julgada dentro de casa e ouvir desaforos pelo simples fato de amar mulheres.

No início, só você me entendia, mãe. Mas veja: eu descobri que existe um mundo ao qual pertenço. Eu mudei de casa, de cidade, de amigos. Reconstruí meus vínculos no lugar em que me permitiram ser quem eu sou. Desenvolvi um filtro especial que me ensinou a ter clareza sobre quem me ama como sou e quem se manteve ao meu lado por uma curiosidade inicial. Um modo de criticar com fundamento. Vivendo perto da diferença.

O que importa, em síntese, é que eu consegui passar por cima disso tudo. Sou extremamente segura de quem eu sou e mais feliz do que nunca. A melhor época da vida, definitivamente, não é a de colégio, a adolescência ou mesmo a faculdade. A melhor época da vida é aquela em que descobrimos, enfim, quem somos. Em que reconhecemos nossas inconstâncias e criamos a maturidade para responder por elas; afinal, ninguém mantém as mesmas verdades para o resto da vida. Que bom que não.

Mas agora, mãe, depois de quatro ou cinco passos para frente, foram dados cem para trás. A representatividade política e jurídica da nossa sociedade está nos colocando numa caixa à margem. Continuam nos diferenciando e, agora, mais uma vez, legitimando a orientação sexual como doença. Se eu precisar de um tratamento psicológico por qualquer questão, esse profissional está autorizado a atribuir todos os meus problemas ao fato de eu ser lésbica, mãe. Você entende a gravidade disso? Não é à toa que os índices de suicídio são enormes entre nós. Viver nessa sociedade heteronormartiva e preconceituosa que nos adoece. Estamos sendo atacados de novo, mãe. O caminho a ser trilhado parece que foi quadruplicado.

Você que me carregou durante nove meses, me criou, me viu crescer e me educou, sabe que eu não tenho problema algum, não sabe, mãe? Acho que você deveria falar com essa gente. Tentar fazer entender que não há nada de errado em ter uma filha que ama mulheres. Mas eu sei, eles não são tão evoluídos quanto você, mãe. O que me dá esperança é ver a tua lucidez com relação a isso. Esses retrocessos nos fazem cambalear, mas nunca desistir.

 

THIANE ÁVILA.

 

 












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