Sexta-Feira, 22 de Fevereiro de 2019

Dhian Carlos Thierizi

Dhian Carlos é um jardineiro iniciante.

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Minha Vida Boia-Fria



Eu nunca fiz parte daquele contingente de crianças que começavam a trabalhar cedo na roça. Essa ideia não me trazia orgulho. Eu ia pra escola e, quando chegava, estudava um pouco mais. Alguns da minha família me chamavam de vagabundo, mas eu já era inteligente e entendia o tipo de alienação no qual eles eram presos.

Quando terminei o ensino médio, a distância da cidade e a proximidade da pobreza deram um chute na bunda da universidade. Tudo bem, esse era um sonho que eu já imaginava ver despedaçado.

Eu tinha 18 anos e a coisa estava feia pro meu lado: devia doces, tubaínas e cervejas no boteco e mal podia jogar uma “melhor de três” na sinuca.

Nunca gostei de pedir dinheiro para o meu pai. É também verdade que ele nunca teve muito dinheiro para me dar.

Foi nessa fase do cão que eu comecei a trabalhar como (e comia mesmo) boia-fria em uma fazenda vizinha. Eu, meu tio e, nem sempre, um primo.

Às vezes, um funcionário da fazenda, que também era amigo nosso, nos buscava. Em outras, pegávamos carona com o ônibus escolar.

Eu tinha vergonha de ir de ônibus. Há um ano atrás eu estava no meio daquele pessoal. Indo pra escola. Voltando da escola. Conhecia a maior parte deles. Não gostava de parecer um cara sem perspectiva. Mas a calça de linho, o chapéu de palha, a camisa de flanela e o bornal com a marmita mandavam a perspectiva lá pra puta que o pariu.

Sentia que para aquelas pessoas era como se meu rosto tivesse sido apagado. Eu era uma apenas uma figura com orelhas grandes, olhos covardes e um nariz cheio de cravos.

Essa desumanidade me atingia e me contaminava.

Certa vez, passando pelo corredor do ônibus, sempre de cabeça baixa, esbarrei em uma senhora.

- Queeeeee isso filho! Peça licença!

- Eu tenho que passar por aqui senhora, é o meu caminho. Por que pediria licença?

- Pela educação?

- Foda-se!

O ardor da reprovação percorria seus olhos, mas ela não podia fazer nada a não ser ficar assustada com a minha boca dura.

Não sentia pena. Eu sabia que poucas horas depois, durante o almoço, sua patética dentadura receberia o fluxo de uma sopa quentinha enquanto os meus dentes rasgariam a carne de um pássaro magro e frio. Morto e frito no dia anterior. Muito provavelmente algum ovo frito olharia para mim também!

Na fazenda, sempre encarávamos coisas diferentes. Realmente éramos pau pra toda obra. Carpíamos, roçávamos, carregávamos pedras, cavávamos buracos, cortávamos cana, matávamos cobras e aranhas, quebrávamos milho, arrancávamos feijão, vacinávamos bois, carneiros e vacas e tantas outras coisas que não consigo lembrar.

O meu tio era um cara engraçado e salvava o dia. Certa vez, enquanto amarrava arames em uma cerca que reformávamos, o alicate que usava se soltou e atingiu violentamente sua boca.

Eu estava há uns 7 metros de distância quando o vi cuspir em desespero.

Com uma geleia de sangue e saliva nas mãos, ele encontrou o dente, encarou-o e disse:

- Vai pro meio do inferno, seu filho da puta!

Aquilo foi a coisa mais legal que alguém poderia dizer para um dente.

No meio da tarde, tirávamos alguns minutos para uma boa cagada. Era um momento de paz e reflexão enquanto aquela massa mole, imunda e marrom lambia o chão vermelho. Procurávamos árvores, moitas grandes de capim ou nos abaixávamos nas curvas de nível que nos protegiam da visão dos outros trabalhadores. Saíamos de fininho. Se vissem nosso deslocamento, fatalmente atirariam pedras e terrões.

Para quem acha que cagar é uma das melhores coisas da vida, é porque nunca atirou pedras em que está cagando. Isso sim é diversão pura e cristalina!

A hora do café era marcada geralmente por um chá azedo e um pão com manteiga. Por causa da quentura, a manteiga sempre ficava amarela e triste. Vez ou outra encontrávamos um pé de laranja para completar a dieta.

Depois disso, pouco se fazia. Até os empregados da fazenda abriam espaço para a aniquilação do tempo. Estávamos cansados demais para qualquer exigência extra. O tom escuro da tarde trazia o alivio necessário.

Geralmente voltávamos para casa na carroceria de uma caminhoneta.

Eu dava as costas para o caminho e contemplava o pôr do sol.

Terra no cabelo.

Bolhas de sangue nas mãos.

Prece para o vento.

Dinheiro para os doces, tubaínas, cerveja e sinuca.

Alguma esperança.












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