Sexta-Feira, 22 de Fevereiro de 2019

Andrea Paiva

Andrea Paiva é Pedagoga e Pós-Graduanda em Fundamentos de uma Educação para o Pensar pela PUC-SP. Apaixonada por questões filosóficas e estudos do Ser, Andrea Paiva é poetisa e autora de livros. Atualmente é pesquisadora na área da educação através do Grupo de Pesquisa e Produção do Conhecimento - Cátedra Joel Martins PUC-SP.

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Ninguém precisa de ninguém, mas ninguém vive sozinho



Certa vez um querido amigo, educador e filósofo chamado Ricardo Boaventura, disse-me tal frase: “não somos átomos isolados no mundo”. Fiquei encantada com tais palavras e as considero muito oportunas para elucidar meu pensamento.


Embora eu perceba que este seja o desejo e a ilusão da maioria (inclusive já foram meus), ainda não somos independentes como acreditamos ou desejamos.


Ah tá, vai me dizer que você não pensa ou nunca pensou assim: eu sou livre, independente e não preciso de ninguém! Se você nunca pensou isso, então saiba que você está enganado. Agora, se você é daqueles que pensam assim, então saiba que você também está enganado! Pois é, a vida é isso mesmo, estranha e contraditória.


Na sociedade de hoje, muitas pessoas até trocam o verbo precisar pelo verbo conviver. O que faz muito sentido, pois o verbo precisar pode demonstrar dependência, e dependência pode insinuar fraqueza. E nos dias atuais, quem é que assume a ideia de ser fraco e dependente? Ninguém!


Perceber a realidade para além das aparências não é coisa tranquila, é coisa sofrida, e admitir nossos enganos custa muito. É que às vezes o nosso Ego teima em não continuar dentro da caixinha. E como já foi dito, eu também prefiro só a ideia de convivência. Pena que a vida nem sempre imita os nossos desejos, não é mesmo?


No cotidiano, por exemplo, convivemos com o motorista de ônibus sem perceber que também precisamos dele pra dirigir o veículo que usamos todos os dias, ou de pessoas com bom senso que respeite o trânsito; do chefe que paga o nosso salário; dos clientes que compram o nosso produto e que fazem com que o nosso pequeno, ou grande negócio, continue andando.


A ideia de convivência existe, mas a necessidade de outras pessoas em nossa vida, também. Acontece que poucas pessoas assumem que precisam de outros por acreditarem que precisar de alguém é ser dependente deste alguém.


Todas as necessidades são momentâneas, flexíveis e mutáveis, mas nem por isso deixam de ser reais. Eu preciso, você precisa, nós precisamos. Que se há de fazer?


Podemos, por exemplo, não "ter chefe”? Podemos! E o mais gostoso é não ter, mas enquanto temos (ou convivemos), precisamos dele.


Precisamos viver nessa vida capitalista, urbana e cruel? Óbvio que não! Bastaria, para tanto, viver apenas da Mãe Terra. Ops, não, não. Você é livre e independente, não precisa de ninguém. Lembra-se? Inclusive da Mãe Terra, dos frutos, da água, do oxigênio e de quaisquer benefícios da natureza.


Quanto a vida social, por exemplo, você não precisa de amigos, principalmente ao sentir necessidade de palavras que te confortam. Aliás, você nem sente tais necessidades. E da família? Menos ainda, todos estão aquém de você.


Parceira ou parceiro no amor? Isso é o que você menos precisa. Até porque, sendo solteiro ou solteira, você fica com quem quiser, a hora que quiser, e se quiser. Você é uma pessoa livre! Ou seja, você julga que isso seja uma prisão.


Além de livre e independente, você é uma pessoa forte. Portanto, não chora por qualquer coisa.


Se você pensa assim, provavelmente é daquelas pessoas que preferem chorar escondidas porque acredita que expor as emoções é demonstração de fraqueza. E diante de outros, você prefere engolir o choro e fingir que está tudo bem. Isso porque, sendo forte, você nunca se sente carente e nunca passa por esse tipo de – segundo o seu julgamento – sentimentalismo antiquado. Você sempre se basta! Portanto, convive com as pessoas, mas não precisa delas.


Às vezes, eu também penso assim, eu me basto! Mas vivemos em sociedade, e ao nascermos, concordando ou não, somos literalmente obrigados a encarar tudo isso. Gostando ou não, estamos molhados do mundo, das pessoas e de nós mesmos.


Há quem pense assim: convive-se com pessoas e precisa-se de coisas, pessoas não são coisas, logo, não precisamos de pessoas. Se você compara pessoas com coisas utilizáveis, infelizmente é fácil pensar dessa forma.


Viver não é difícil, mas dá trabalho. Você, por exemplo, não precisa, mas é, em sociedade: amigo, vizinho, filho, irmão, estudante, pai, mãe, aquele, aquela, menino, moça, ele, ela, namorado, marido, eu, eleitor, passageiro, motorista, homem, mulher... Ufa! Mas quem sabe um dia você deixe de pensar que é tudo isso e passe a ser apenas você mesmo!


Pois é, ainda existe quem pense que somos uma infinidade de substantivos e pronomes. E assim como você, eu também sonho com o dia em que conseguiremos ultrapassar este modo de pensar.


Mas, ainda que isso aconteça, continuaremos nesse fluxo de necessidades e convivências. Então, não se iluda. Não somos átomos isolados no mundo, e a nossa liberdade vai até a página 2 do livro.


A gente bem que tenta burlar a escrita e até conseguimos escrever alguma coisa com nossas próprias mãos. Mas, no fundo, no fundo, sabemos que não escrevemos o livro todo. Até somos os protagonistas de nossa própria vida, mas isso não diminui a importância dos coadjuvantes.


Ninguém precisa de ninguém, mas ninguém vive sozinho. Não tem para onde correr! E mesmo que você consiga correr e se isolar do mundo, ainda assim terá a si próprio para dar conta. Ou será que você não é alguém pra você mesmo?

 

Por Andrea Paiva

contato@andreapaiva.com












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