Sábado, 19 de Outubro de 2019

Sergio Filho

Pós-graduado em fotografia pela FAAP, desenvolveu estudos acadêmicos na área de comunicação, com foco em estudos culturais e semiótica. Técnico em Artes Visuais e graduado em Comunicação Social, está em constante atualização nas áreas de música, artes visuais, filosofia e política. Atualmente cursa pós-graduação em Metodologia do Ensino de Artes.

Fotógrafo e designer gráfico, atua no ramo de artes visuais, além de desenvolver trabalhos com composição musical e escrevendo estórias.

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Opinião, convicção e fanatismo.



Hoje, com a facilidade das redes sociais, temos uma possibilidade muito maior de debater assuntos num âmbito mais amplo do que tínhamos pouco tempo atrás. É inquestionável a facilidade com a qual alguém que esteja em seu smartphone com acesso a redes sem fio ou em um computador, seja próprio, seja numa lan house, ou até em serviços sociais oferecidos como o "acessa Jundiaí", pode participar de discussões que envolvam pessoas de diferentes locais do país e do mundo, em grupos e páginas específicos dentro das redes sociais.

A questão central é o quão profundas essas discussões são levadas à diante.

Estamos prestes a completar um ano do que ficou conhecido como “os protestos de junho”, uma série de protestos inicialmente encabeçados pelo Movimento Passe Livre (MPL) devido ao aumento da tarifa de ônibus em São Paulo, que renderam diversos desdobramentos. Naquele momento pudemos ver a articulação de grupos quase que exclusivamente através dessas redes, através de uma organização praticamente em tempo real, onde com os próprios celulares milhares de pessoas se comunicavam entre si através das páginas dos protestos durante o ato. E funcionou muito bem.

O que antes era restrito apenas ao agrupamento físico, como movimentos estudantis em universidades, agora pode ser realizado com a facilidade do acesso à internet, entre pessoas dos mais diversos grupos.

Se por um lado isso carrega o caráter positivo do aumento das possibilidades de participação política da classe média, e até de classes inferiores, indo além do simples exercício do direito de voto (que, aliás, é obrigatório) e entrando em pontos culturalmente defasados no nosso país, que tem um grau baixíssimo de interesse político por parte da população e onde se convencionou que “política, futebol e religião não se discute”, por outro lado, alguns cuidados devem ser tomados para que a coisa seja feita de maneira realmente produtiva.

Várias análises feitas recentemente sobre a violência no ciberespaço, como o próprio cyberbullying levantado por muitos como táticas covardes de inferiorizar pessoas a partir da segurança de estar atrás de uma tela de computador pela simples lógica de bullying, são pertinentes. Mas, além disso, após os protestos de junho, muito se falou sobre o decaimento de debates políticos entre as classes populares para trocas de argumentos simplistas, ignorância generalizada (no sentido literal do termo, de “não-conhecimento” sobre o assunto) e de violência gratuita, com ofensas, desrespeito e demonstrações de preconceito.

Porém a culpa, nesse caso, não é apenas da lógica do ciberespaço em si, ou de algum tipo de prática de bullying.

Uma das tarefas provavelmente mais complexas pra se realizar um exercício democrático saudável, dificuldade que aumenta na proporção em que a participação política é mais exercida por grandes grupos, é evitar a supressão ideológica do pensamento divergente. Conforme as pessoas se agrupam com um interesse político em comum, mais do que isso, com uma ideologia em comum, a tendência é que essa ideologia, essa finalidade política, se coloque acima da preocupação com a prática democrática em si, que nada mais é do que um meio para atingir as finalidades políticas independente de quais sejam.

O meio democrático tem que estar acima de qualquer finalidade ideológica. É comum que as intenções buscadas com alguma ideologia em específico sejam utilizadas como justificativa para atitudes que atropelem o meio democrático, esse é o princípio básico de qualquer regime autoritário.

Isso significa que as pessoas tendem a acreditar tanto em suas motivações políticas que passa a haver um risco de não se respeitar as motivações dos outros que estejam em discordância. Esse tipo de coisa não acontece só no ciberespaço, é um comportamento comum em movimentos universitários, no meio dos próprios protestos, movimentos de militantes e em demais debates políticos. O ciberespaço só intensifica esse processo ao passo que aumenta a possibilidade de participação política de todos e, ao mesmo tempo, assim como nos casos de cyberbullying, possibilita confrontos verbais agressivos sem um contato pessoal, muitas vezes até realizados por perfis falsos criados apenas para esse propósito.

Vale lembrar que já é prática comum a utilização de militantes treinados apenas para defender interesses de partidos ou ideologias específicas na internet e atacar os opositores, são os chamados “MAVs” (Militância em Ambientes Virtuais), e não é difícil que se encontrem atuando através de perfis falsos para realizar sua tarefa.

É bom para o exercício democrático que todos tenham possibilidades efetivas de participar da política não só durante as eleições, seja debatendo, opinando ou protestando. Nesse sentido, inclusive já se discute alternativas à democracia representativa pela sua tendência de gerar comodismo por parte dos eleitores, bem como problemáticas de representação política orquestradas por grandes táticas de marketing, mas enquanto essas questões ainda engatinham, a democracia tal qual temos à mão só pode funcionar de verdade se houver confronto entre opiniões, entre ideias diferentes, não quando há dominação da ideologia de um grupo sobre as demais.

É aí que mora o fanatismo.

Os debates são necessários para que as pessoas defendam aquilo em que acreditam, suas crenças, e tenham seus argumentos confrontados pelas crenças dos que discordam. Isso, em teoria, deveria funcionar como construção de um corpo de argumentos que contribua para a formulação da opinião das pessoas, sejam os próprios debatedores (que poderiam, por ventura, rever seus conceitos, ou reforça-los com mais argumentos), seja qualquer pessoa que estiver acompanhando o debate (com alguma opinião já formulada a respeito ou não), bem como o assunto debatido como um todo.

Quando há fanatismo, isso não acontece. A crença se solidifica, tapando a receptividade aos contra-argumentos, causando discussões fora do campo da lógica. Agressões verbais – e até físicas – são comuns quando a argumentação é substituída pelo fanatismo, e esse tipo de comportamento ideologicamente opressor tende a buscar, conscientemente ou não, duas coisas: impedir a expressão de opiniões divergentes (partindo do princípio que elas nem devem ser levantadas, uma vez que na concepção do fanático, as opiniões diferentes das que ele possui já estão inquestionavelmente erradas) e colocar as próprias opiniões como verdades incontestáveis (visando levar pessoas indecisas e com menos conhecimento sobre o tema a comprá-las como tal).

É importante deixar claro que fanatismo não é o mesmo que convicção.

O dicionário define o termo “fanatismo” como “paixão cega que leva alguém a excessos”, enquanto o termo “convicção” tem como definição “certeza adquirida por fatos ou razões”.

É perfeitamente possível, e saudável, que as pessoas tenham convicção nas suas crenças, a dúvida é sempre uma aliada da sabedoria, mas a partir do momento que as pessoas formulem uma opinião sobre um determinado assunto dentro de um regime democrático, elas podem – e devem – defender sua opinião quando questionadas. Entretanto, é vital que quem detenha determinadas convicções tenha maturidade para aceitar que elas sejam confrontadas. A diferença entre a boa convicção e o fanatismo está justamente em como lidar com opiniões contrárias, na maturidade de sempre refletir a respeito dos argumentos apresentados, admitir argumentos lógicos que coloquem em xeque suas crenças e na aceitação da existência de opiniões divergentes como necessárias para o estabelecimento de um debate.

A convicção, quando existe, deve trabalhar sempre num campo racional, lógico, enquanto o fanatismo é cego e trabalha no campo emotivo, passional. Não é saudável que a política seja debatida no campo passional, pois obviamente resultará em conflitos que não respeitam os princípios da democracia.

O Observatório da Imprensa atribui a Goebbels (Ministro da Propaganda do Reich do governo nazista, grande responsável pela manutenção da supremacia ideológica nazista nos veículos de imprensa, entretenimento e publicidade da Alemanha) a frase, já icônica: “a propaganda jamais apela à razão, mas sempre à emoção e ao instinto”, proferida em 1934. Ela já deixa claro como o apelo emotivo pode ser prejudicial para a capacidade de ponderar as questões relevantes, sob a ameaça de sermos condicionados a um fanatismo ideológico que possa querer justificar excessos totalitaristas. Inúmeros estudos sociológicos e filosóficos tentam explicar como a ideologia nazista chegou onde chegou em sua ascensão, mas o que é praticamente unânime é que houve um apelo ideológico muito bem construído, comandado por um regime autoritário que não aceitava oposição política.

É partindo desse princípio que os debates políticos realizados, tanto no ciberespaço quanto no “mundo real”, devem ser plurais. Os protestos de junho, mesmo tendo sido seguidos pela volta do comodismo que imperava antes por parte de um grande grupo, e em contrapartida, de um radicalismo revolucionário por parte de outros tantos, como o caso dos usuários das táticas de Black Bloc (ambas atitudes prejudiciais ao exercício democrático e ao avanço da construção de uma democracia bem resolvida), também trouxeram um aumento no interesse político por parte de muitas pessoas, o que tecnicamente é extremamente benéfico, mas é natural que um país cuja cultura está alçada há tanto tempo no desgosto pela política tenha dificuldades em desenvolver debates realmente produtivos de uma hora pra outra.

Cabe a cada um se policiar para não deixar suas convicções se tornarem fanatismo, o que nem sempre é fácil, melhorando assim o nível dos debates políticos e, consequentemente, a prática política do país como um todo. A mudança cultural de um povo não se dá radicalmente da noite para o dia, é um processo gradual e árduo, mas também pode ser uma perigosa bola de neve: se realizada de maneira produtiva, como é o caso da preocupação com o exercício democrático, pode gerar uma melhora gradativa que tende a ganhos; se abandonada a um desencadeamento negativo, como a manutenção e expansão de um fanatismo autoritário e comportamento violento, gerará cada vez mais ódio e retrocesso do exercício democrático, até o risco de opressão ideológica efetiva, tanto realizada pelo Estado (numa supressão abrupta ou até gradual da lógica democrática), como também por parte de uma parcela da própria população que não aceita que outras parcelas cujas opiniões são divergentes opinem.










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