Quarta-Feira, 20 de Fevereiro de 2019

Albertino Lima Ribeiro

Albertino Ribeiro é economista, analista de informações econômicas do IBGE, possui especialização em Psicologia do Trabalho e tem um olhar sob o ponto de vista humano das relações socioeconômicas atuais.

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Por que a cultura do trabalho mata no Japão?



“A plenitude da atividade humana é alcançada somente quando nela coincidem, se acumulam, se exaltam e se mesclam o trabalho, o estudo e o jogo; isto é, quando nós trabalhamos, aprendemos e nos divertimos, tudo ao mesmo tempo.... É o que eu chamo de ócio criativo, uma situação que, segundo eu, se tornará cada vez mais difundida no futuro.“

Essa frase do sociólogo italiano Domenico de Masi é um contra ponto à notícia que recebemos esta semana sobre o falecimento de uma repórter  japonesa. A jovem veio a falecer após ter feito 159 horas extras em um mês.

 Miwa Sado, 31 anos, teve um ataque cardíaco e foi encontrada morta em sua cama segurando um celular. As autoridades japonesas concluíram que a jovem morreu por causa do excesso de trabalho, um fenômeno conhecido como Karoshi.

O Karochi tronou-se uma epidemia no Japão. Os trabalhadores japoneses tem morrido de atque cardiáco, derrame e suicídios, aliás, o suicídio é o que mais tem matado os trabalhadores por lá. Todo ano morrem cerca de 30.000 trabalhadores.

Atualmente, 22,7% dos trabalhadores japoneses fazem 80 horas extras no mês. Mas o excesso de horas trabalhadas não é mais fenômeno, apenas, japonês.Segundo um estudo da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), a Turquia possui um percentual de trabalhadores atuando por mais de 50 horas semanais (43%), depois vem o México com 28,8% e Coreia do Sul com 27,1%.

Mas o que leva uma pessoa a se matar por causa do trabalho? Por que uma devoção tão cega e tão alienante?

 A devoção ao trabalho não é algo recente, existe há milênios. Podemos encontrar relatos até no antigo Egito onde o trabalho era visto como uma forma de agradar a Deus. Vejamos alguns textos daquela época: ” o amor ao trabalho leva o homem próximo de Deus”; “Seja ativo, faze mais do que deves, pois atividade produz a riqueza, mas a riqueza não dura se a atividade relaxa”.

Pode-se notar que esses textos egípcios possuem um paralelo com a ética protestante de Marx Weber, onde o trabalho também é considerado como uma forma de agradar a Deus e também de obtenção de riqueza.

Contudo, as mortes por excesso de trabalho que tem acontecido no Japã não estão relacionadas a motivos religiosos e nem mesmo a objetivos de ganhar mais dinheiro.  Essa devoção começou no pós segunda guerra mundial. Naquela época o país estava devastado e precisava reerguer-se das ruínas. Sendo assim, recrutou o máximo de mão-de-obra possível. Em um contexto permeado por uma áurea nacionalista, as empresas começaram a valorizar o auto sacrifício e a dedicação. Naquela época foi necessário, mas o tempo passou e a emergência daquele momento da história não mais existe, mas o espírito de auto sacrifico, dedicação e honra  ainda permanecem.

 Os japoneses tem no trabalho o seu objetivo principal que, infelizmente, ocupa até mesmo o lugar da família. Para termos uma ideia, uma grande empresa Japonesa, a Mitsubishi UFJ Trust and Banking, possui um programa que permite aos funcionários saírem três horas mais cedo justamente para ficar com a família. Não obstante, mesmo o incentivo partindo da alta direção administrativa, apenas, 0,5% dos funcionários se inscreveram no programa. Eles se sentem desconfortáveis, pois tem medo de serem classificados pelos colegas como quem está fazendo corpo mole e não vestem a camisa da empresa.

Não é difícil imaginar que o cansaço físico convive com uma grande pressão psicológica, e essa combinação tem levado muitos trabalhadores Japoneses  ao adoecimento e morte.

Dentro desse contexto tão mórbido, não temos muito o que aprender com esses trabalhadores que desperdiçam sua juventude e suas vidas trabalhando em excesso, mas podemos aprender, embora pareça contraditório, com a filosofia desse povo, e com a filosofia oriental em geral. Esta tem como desejável justamente o equilíbrio. Os arquétipos yin e yang, que representam a unidade dos opostos, nos aponta para uma atitude de moderação. Assim  sendo, devemos gastar nosso tempo livre para valorizar a família e os nossos amigos, fazendo com que o trabalho seja, apenas, um meio e não um fim em si mesmo.

 












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