Quarta-Feira, 18 de Maio de 2022

Thiane Ávila

Estudante de comunicação social, já atuou como professora de Língua Portuguesa e Inglesa. Seu gosto pela escrita foi percebido e trabalhado desde muito cedo, levando-a a, hoje em dia, manter um blog pessoal com postagens regulares de textos autorais.

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Predileção do amor



O sabor da vida destoa-se com a realidade. Toda a soberania de existir esvai-se por uma miséria de olhar. A rebeldia de ser individual perece na firmeza de saber tão pouco e sentir muito. Trata-se da sentinela da saudade que é eterna e constante, mesmo com as mãos entrelaçadas e com a cabeça recostada no peito. A incerteza e a insegurança transbordam em forma de amor exagerado.

Mãe, tu que tens todas as respostas. Tu que compreendes todas as retóricas. Tu que fazes valer tantos significados vazios de existência. Tu que vês beleza nos erros. Tu que tens a capacidade da mansidão emancipada no peito. Tu que transfiguras qualquer dor em serenidade. 

Mãe, tu que és a personificação da bonança. Tu que és a capacidade de profanar esperança. Tu que reconfiguras em amor os erros enjambrados simplesmente por carregar em teus braços a peça certa para preencher qualquer vazio.

Mãe, não tem jeito, o filho cresce. A asa destoa com a imensidão da tua prece, mas continua deveras dependente de cada palavra emitida. De cada recapitulação da vida, as lembranças que tu não cansas de entoar.

Mãe, o tempo é desconexo com a vagarosidade da tua pressa, sempre a tentar retardar a brisa que não cessa. Simplesmente para não perder nenhuma descoberta. Para que nenhuma nuance passe, discreta. O itinerário da tua vida, eu sei, é a minha.

Mãe, acho injusta e linda a tua devoção. Não sei se eu nasci com essa capacidade em minhas mãos, mas sempre compactuarei com os esforços pra manter a tua perfeição a profanar. Uma herança da natureza que vive a nos presentear, errando apenas em te fazer mortal.

Mãe, fico pensando de quando em vez no significado dos nascimentos. Tu bem sabes, nasci meio fora do tempo, e não encontro resposta para justificar nossa existência. O que me acalenta nessa corrida frenética por resposta é que aprendi a fazer as perguntas de forma torta, ressignificando qualquer explicação em simples vivência de ser filha. De ser tua filha. Já me basta essa réplica. Ter vivido na tua métrica já me faz dar por esgotado qualquer dilema presencial.

Mãe, não sei em qual proporção nossa realidade é concreta. Agonia-me não poder desmembrar cada uma de suas brechas, mas me alivio com a tua despretensão. Apazigua-me saber que a tua única predileção é confortar nos teus braços minha vulnerabilidade imatura.

Mãe, tu que carregas nos braços alguns mundos. Tu que saboreias todos os sabores, quase sempre sobrecarregada com tudo, quando questionada sobre o maior desejo ainda é capaz de dizer que não quer que saiamos do teu meio. Que o teu trabalho não diminua.

Numa lógica contrária, tua fraqueza parece multiplicada quando um dos mundos se afasta. Eu sei, mãe, é a falta de equilíbrio que maltrata. Teu corpo passa a tê-los como membros.

Mãe, só peço que não te aborreças. Por mais que a gente nunca cresça, os arredores vão tomando formato e vamos construindo os próprios rastros, tão orientados pelo teu clã protetor.

Mãe, tu és qualquer coisa transmutada em amor. Um desabrochar suave de vida. Uma nota perfeita em qualquer melodia. Um excesso de perfeição.

 

THIANE ÁVILA.












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