Quarta-Feira, 20 de Fevereiro de 2019

Jonathas Rafael

Jonathas Rafael possui graduação em Psicologia (2015) pela Faculdade de Ciências Econômicas, Administrativas e Contábeis de Divinópolis - FACED. Tem experiência na área de Psicologia, com enfoque psicanalítico, em atividades com pequenos grupos de adolescentes em Estado de Vulnerabilidade Social e Atendimento Clínico Individual a adolescentes e a adultos. Seus principais temas de interesse são: Adolescência, Análise Institucional, Educação, Envelhecimento, Família, História do Brasil, Literatura Brasileira, em especial a machadiana, Preconceito Linguístico, Psicanálise e Cinema, Psicanálise e Educação, Psicanálise e Laço Social, Psicanálise e Literatura, Representações Sociais, Uso e abuso de álcool e outras drogas e Violência Urbana.

E-mail: jonathas.rafael@yahoo.com.br

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Responsabilidade terceirizada



Há alguns dias, mais do que nunca, achava-me atencioso às conversas de pessoas na vida cotidiana. Busquei compreender como as pessoas do contexto em que vivo estavam lidando com as situações problemáticas que surgiam diante delas. Das conversas que analisei, exporei três neste texto. Antes, porém, é importante dizer que os psicólogos não ficam todo o momento analisando os fatos da vida cotidiana como se fosse uma fissura – não se preocupe. Como se sabe, o padeiro não faz pão todo o momento, o médico não realiza cirurgias em todos os lugares, os guardas de trânsito não aplicam multas em todas as esquinas, fora de seus horários de trabalho, o frentista de determinado posto de gasolina, ao abastecer seu veículo nos dias de folga, deixa para outro frentista inserir o combustível no tanque, ao invés de descer e fazer isto por si mesmo. A lógica é mais ou menos a mesma para o profissional psicólogo.

 

A primeira conversa diz respeito ao fato de que uma adolescente não querer frequentar diariamente os cultos de uma instituição religiosa. Ela alegava diante de uma mulher adulta que não tinha a necessidade de ir todos os dias à igreja, uma vez que as coisas se repetiam sempre – dizia em relação à liturgia do culto. A mulher adulta, então, disse-lhe: “Mas você tem que vir todos os dias, porque só assim vai se sentir mais forte para caminhar e se afastar desse mundo perverso! Você precisa vir todo o dia, se quiser melhorar sua vida!”. A adolescente acuada, disse: “Ah, mas quem disse isso foi o (nome de uma pessoa que é referência na instituição)! Ele disse que eu não preciso vir todo o dia! Então acho que não vou vir!”.

 

A segunda conversa, que na verdade foi uma entrevista cedida a um jornal, diz respeito a um policial que estava em dia de trabalho. Ao averiguar a denúncia de tráfico de drogas em uma comunidade, juntamente com sua equipe, avistou um adolescente entrando em uma casa e saindo dela a pouco segurando um artefato que, segundo ele, era semelhante à pasta base de cocaína. Sabe-se lá o que ocorreu ao certo nesse ínterim, mas, no final das contas, o adolescente acabou morto com um tiro na cabeça. Ao se aproximarem da vítima, o policial e sua equipe constataram que, na verdade, o adolescente estava segundo era um saco de pipoca: tudo isto com a comunidade já presente no local. Em entrevista, o policial dizia que o adolescente havia sacado uma arma e atirado contra os policiais, mas tiros nem cartuchos deflagrados puderam ser encontrados. A equipe policial dizia que, na verdade, foram os traficantes que atiraram no adolescente, durante a troca de tiros, mas a perícia não encontrou indícios de tiroteio no local. A comunidade, por sua vez, afirmou que os policiais agiram precipitadamente: atiraram antes para depois saber a verdade. Uma vez que o policial, a equipe policial e a comunidade apresentaram uma perspectiva para o fato, a investigação continua paulatinamente.

 

A terceira conversa ocorreu no interior de um ônibus, e diz respeito ao transporte de passageiros. Em horário de pico, o ônibus já se achava bastante cheio de passageiros – para não dizer lotado: isso no quarto ponto de ônibus da rua principal da cidade. Todos passageiro, então, bem apertados entre si tinham de apertar-se mais para caber outros passageiros. No sétimo ponto de ônibus, ainda na rua principal da cidade, o ônibus já se achava, com certeza, com sua lotação ultrapassada. Seus passageiros não podiam segurar-se firmemente, o que é bastante perigoso. Mais preocupado com o retorno financeiro – a passagem ainda custa R$ 3,90, isto é, mais cara do que na sua capital – do que com a segurança dos passageiros, motorista e trocador decidiram ordenar aos passageiros já presentes que se “espremessem” mais ainda para mais pessoas entrassem no ônibus. Como não tinha jeito, os passageiros se recusaram, fazendo com que motorista e trocador ficassem enfurecidos. Diziam alternadamente: “Vamos chegar mais para trás aí pessoal, ainda tem muito espaço aí que eu tô vendo!” O ônibus só vai andar depois que as pessoas de fora entrarem! Se demorar, vocês vão ser os culpados!”. Como, de fato, não havia possibilidade, depois de alguns minutos o plano se frustrou e o ônibus partiu sem que as pessoas de fora entrassem.

 

Mas, então, o que as três conversas/situações têm em comum, pode se perguntar o leitor. Nada mais nada menos do que a incapacidade de assumir a responsabilidade dos atos, aliás, há uma terceirização da responsabilidade. Nas três situações acima, as pessoas, ao invés de assumirem a responsabilidade de suas ações, projetam-na em um terceiro, como se este tivesse de assumir toda a responsabilidade dos acontecidos. No caso da adolescente, ao invés de ela dizer à mulher adulta que não queria mais participar com tanta frequência dos cultos da igreja, por questões pessoais – isto não tem nada de errado – acabou por inserir um terceiro na conversa a fim de justificar seus objetivos. É como se o outro legitimasse seu desejo. No caso do policial, ao invés de assumir a responsabilidade e dizer que, de fato, errou ao atirar no adolescente diretamente na cabeça, na cabeça é importante enfatizar, preferiu responsabilizar a própria vítima por seu ato não condizente. No caso do ônibus, ao invés de o motorista e o trocador entenderem que o coletivo está superlotado e pensarem: “Nossa, a empresa para a qual trabalhamos poderia disponibilizar mais ônibus nestes horários para suprir as necessidades dos cidadãos!”. Mas, não, preferiram responsabilizar os próprios passageiros que pagam um absurdo para se transportarem sem segurança e conforto.

 

Há outras situações da vida cotidiana em que – todos nós – usamos desse subterfúgio de responsabilizar o outro por atos que eles não têm nada a ver. Tendemos, infelizmente, a terceirizar nossa responsabilidade. Claramente que isso não é saudável. É importante compreendermos que assumir nossas responsabilidades é desconfortante – ora, saímos da zona de conforto –, mas nos promove autonomia. Assumir a responsabilidade de um ato, seja ele considerado ou repudiado, é causa de uma felicidade indescritível, é agir com ética, mas muitas pessoas ainda não desenvolveram a capacidade de compreender isso.

 

Se quisermos construir uma sociedade cujos valores estejam pautados pela ética, uma maneira primeira de se fazer isso é assumindo nossas responsabilidades. Claro que é mais confortante assumir a responsabilidade em situações gloriosas, ao passo que situações que colocam nosso Eu em posição fragilizada, não. Independente da situação, projetar a responsabilidade em um terceiro não é a solução da problemática diante da qual nos achamos. Precisamos parar para pensar e repensar isso!


Jonathas Rafael

2/1/2017












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