Quarta-Feira, 18 de Maio de 2022

Thiane Ávila

Estudante de comunicação social, já atuou como professora de Língua Portuguesa e Inglesa. Seu gosto pela escrita foi percebido e trabalhado desde muito cedo, levando-a a, hoje em dia, manter um blog pessoal com postagens regulares de textos autorais.

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Saí discreta



Eu preferi deixar a luz do quarto apagada. Antes de dormir, naquela noite, tomei o cuidado para não me tapar por inteira. Deixei a maior parte da coberta sobre você, aquecendo o seu coração que, dali pra frente, ia doer.

Certifiquei-me de que, ao te abraçar naquele momento, você sentisse, durante o seu sono, as batidas do meu peito. O carinho mudo que fazia em você ao te ver adormecida, ao te ter recostada sobre mim. Sempre soube que você se sentia segura naquela posição, completamente envolvida. E eu também, segura por poder te dar certa estabilidade.

No canto escuro do nosso quarto, o retrato da nossa última festa. Fizemos questão de revelar, lembra? Ficou bonito. Guardava um quê de aventura e paz. De música e silêncio. De amor e companheirismo.

As horas passavam e os nossos pés ficavam cada vez mais entrelaçados. Você parecia sentir a distância por antecedência. E eu realmente precisava ir. Deixei, no meu lugar, uma blusa qualquer com meu cheiro. Nunca quis te assustar com uma saída repentina. Mas também nunca quis que a vagarosidade tirasse o nosso auge, reprimisse nossa felicidade e nos fizesse lembrar de momentos ruins que aconteceriam dali pra frente.

Fui imensamente covarde e corajosa. Fui imensa e pequena. Tive a cautela de retirar nossas lembranças mais gritantes dali. As fotos mais recentes, as rosas que há pouco havia te dado. Recordações que machucam o coração que já padece.

Eu saí contando os passos, lendo cada detalhe daquele quarto que testemunhou tanto de nós. Tirei da sua gaveta mudas de roupa minha, que você só guardava para ter, para apalpar e cheirar enquanto eu estivesse na faculdade e batesse aquela saudade.

Não queria que continuasse a escutar a nossa música, nem a ler o tanto que já escrevi sobre você. Dói machucar a ferida. Transbordei em não ao querer dizer sim.

Não pense que foi fácil dizer adeus aos sorrisos, aos beijos demorados e ao silêncio interrompido pelos olhares. Não acho que a minha felicidade esteja em outro lugar, pelo contrário. Como me foi doloroso o desenroscar dos pés tão aconchegados debaixo do edredom. Doeu tirar a sua cabeça recostada no meu peito, trocando por uma blusa morna e com um perfume que imitava o meu.

Mas eu não podia deixar que o nosso auge acabasse. Não seria forte o bastante para ter na lembrança abraços rasos de velhos desconhecidos. Beijos breves de despedida, tão distantes dos que dávamos antes.

A força me faltaria ao precisar falar sobre o quanto a relação não estava boa, quando, na verdade, o meu mundo passou a dividir as estruturas do seu. Não fui feita para adeuses.

Lembro que um dia disse que preferia nunca ter tido a perder. A rigor, talvez seja isso mesmo. A fraqueza de não conseguir desrespeitar a célebre frase do tornar-se eternamente responsável por aquilo que cativas. Sempre serei responsável por você. Entenda isso.

O adeus seja, talvez, nada mais do que não saber esperar. Esperar pelo fim ou pelo início. Pelas brigas ou pelas reconciliações. Dizer adeus é privar-se do amanhã, mas também impedir que o ontem perca o valor que sempre teve por uma recordação torta de um presente que não existe mais.

 

THIANE ÁVILA.












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